De Profundis
No ano passado (ou talvez no retrasado ) reli O retrato de Dorian Gray. Eu havia esquecido o quanto a escrita de Oscar Wilde é envolvente. Gosto de cartas, peças de teatro, manifestos, ensaios e diários. Gosto de textos em que a voz do autor parece estar mais próxima, como se houvesse pouca distância entre aquilo que se viveu e aquilo que se escreveu. Acho particularmente difícil sentir isso na ficção; para que uma obra de ficção me envolva, ela precisa de alguns elementos que eu me estenderia demais tentando explicar.
Algumas experiências de leitura se parecem com experimentar um prato no qual sabemos que falta alguma coisa, embora não sejamos capazes de dizer exatamente o quê. Ainda assim, continuamos comendo para não nos indispormos com quem o preparou. Sinto-me assim diante de muitas obras de ficção. Não gosto de criticar o trabalho alheio (risos), salvo quando a leitura se torna verdadeiramente intragável. No geral, apenas guardo para mim as minhas considerações.
Isso definitivamente não se aplica a Oscar Wilde. Reli O retrato de Dorian Gray com a velocidade e o assombro de quem o encontra pela primeira vez. O livro nos prende em uma trama profunda e, ao mesmo tempo, corrosiva. Temi que Dorian fosse descoberto, mas também me deixei seduzir pelos seus modos, por sua beleza e pela atmosfera que o acompanha. Ele desfruta de uma serenidade hedonista, por vezes vaidosa, cuja elegância captura o leitor, ao mesmo tempo em que tudo à sua volta possui certo ar funesto e superficial. Seu segredo nos envolve.
Talvez tenha sido essa releitura que me levou novamente a De Profundis. Ainda me lembro da primeira vez que li o livro. Um colega da escola tinha um exemplar e me emprestou. Naquela época, eu não compreendi muito bem o contexto. Entendi que o autor da carta estava preso, mas não alcancei inteiramente as circunstâncias que o haviam conduzido até ali. Fiquei apenas com a impressão juvenil de que aquele homem estava mergulhado em uma dor profunda, provocada pelas ruínas de um relacionamento. Confesso que, naquela primeira leitura, não me apeguei tanto à obra. Recentemente, porém, comecei a folheá-la e, quase sem perceber, estava lendo tudo outra vez. Como é bom revisitar antigas imagens com a serenidade dos anos já vividos. Há livros que permanecem os mesmos enquanto nós mudamos; quando voltamos a eles, os anos vividos parecem revelar coisas que antes não éramos capazes de enxergar.
Dessa vez, De Profundis me envolveu de tal maneira que chorei ao chegar a um de seus trechos. Wilde conta que, enquanto era conduzido algemado da prisão para a Corte de Falências, seu amigo Robbie Ross o aguardava em um corredor. Diante das pessoas que assistiam àquela cena, Robbie simplesmente tirou o chapéu quando Wilde passou diante dele, algemado e de cabeça baixa. Wilde escreve: “Por muito menos do que isso muitos homens já foram para o céu.” Mais adiante, ao recordar o que aquele pequeno gesto significou durante os momentos mais difíceis da prisão, diz que, quando a sabedoria já não lhe servia, quando a filosofia lhe parecia estéril e as palavras daqueles que tentavam consolá-lo tinham gosto de pó e cinzas, a lembrança daquele “pequeno, adorável e silencioso ato de amor” fez “o deserto florescer como uma rosa”. Há uma beleza silenciosa em encontrar, no momento mais profundo da humilhação, alguém que nos devolva aquilo que o mundo parece empenhado em retirar de nós: a lembrança de que continuamos humanos.
As primeiras páginas da carta nos mostram o quanto Oscar Wilde estava lúcido diante da própria condição. Ele compreendia a extensão de sua ruína e reconhecia o papel que seu encontro com Alfred Douglas havia desempenhado em sua vida. Suas palavras são tão profundas e, em certos momentos, tão sóbrias, que me custa compreender como alguém capaz de enxergar a própria situação com tamanha clareza pôde se deixar consumir por uma paixão tão destrutiva. Pensei, durante a leitura, que talvez tivesse faltado a Wilde alguma frieza. Ele sabia que precisava colocar um ponto-final naquela relação. E, de fato, tentou fazer isso diversas vezes sem sucesso. Enquanto lia, eu me perguntava por que não saía da Inglaterra, por que não rompia definitivamente com Douglas, por que não cortava todos os vínculos, se afastava tanto quanto fosse possível e simplesmente se voltava à sua arte com a mesma paixão. Mas essa pergunta é injusta; é feita por quem observa a história de fora e já conhece o seu desfecho. Talvez seja fácil reconhecer a saída quando não somos nós que estamos aprisionados nos jogos da paixão. Ainda assim, acredito que o amor só pode ser bom quando não exige a destruição daquele que ama. Toda relação que conduz o outro até o limite de si mesmo, que o diminui ou o aproxima continuamente do abismo, carrega alguma forma de violência. Quando não é o envenenamento de si que se busca no encontro com o outro, o melhor que se pode fazer é afastar-se, o mais depressa e o mais longe possível.
As idas e vindas narradas na carta me causaram angústia: as cenas, as brigas, as acusações, as cartas raivosas, as tentativas de rompimento seguidas por novas aproximações. Eu queria compreender por que Wilde não conseguia partir, embora talvez a própria carta ofereça uma resposta. Em determinado momento, ele escreve: “Deixei de ser senhor de mim mesmo. Já não era mais o comandante da minha alma e não sabia.”A lucidez nem sempre é suficiente para nos salvar daquilo que desejamos; eu sei.
Podemos compreender perfeitamente uma situação e, ainda assim, não conseguir sair dela. Há alguma coisa particularmente dolorosa em perceber que Wilde parecia compreender tantas coisas e, ao mesmo tempo, não conseguia impedir que sua própria vida se encaminhasse para a ruína. Em outro momento, ele diz: “Esqueci que cada pequena ação cotidiana pode fazer ou desfazer um caráter.”
Oscar Wilde perdeu quase tudo. Seus livros foram vendidos, assim como sua casa, suas roupas e seus objetos. Perdeu sua posição social, a convivência com os filhos e o direito de usar o próprio nome sem que ele carregasse o peso do escândalo. Também foi afastado, durante aquele período, do exercício livre de sua arte. Sua ruína não pode ser separada da crueldade de uma sociedade que transformava sua existência e seu desejo em crime. A carta também revela uma destruição íntima que já estava em curso: o desgaste provocado por uma relação marcada pelo excesso, pela vaidade, pela dependência e pela incapacidade de partir. Wilde parece saber que essas duas coisas existiram ao mesmo tempo. Há uma frase na carta que talvez expresse isso melhor do que qualquer tentativa de explicação: “Terrível foi sem dúvida o que o mundo fez comigo, mais terrível ainda foi o que eu fiz contra mim mesmo.”
Mesmo depois da prisão, que durou dois anos e durante a qual não recebeu uma única carta de Douglas, os dois ainda voltariam a se aproximar por alguns meses. É difícil olhar para isso e não sentir alguma perplexidade. Mas talvez seja, novamente, o desconforto de quem conhece o desfecho da história. Wilde morreria pouco mais de três anos depois de deixar a prisão, em um quarto barato em Paris. Douglas viveria ainda por muitas décadas.
Talvez tenha sido justamente essa complexidade que eu não consegui perceber quando li De Profundis pela primeira vez. Na juventude, eu enxergava a dor, mas não tudo aquilo que havia dentro dela. Uma passagem me parece resumir muito do que encontrei nesta releitura:
“Já afirmei que por trás do sofrimento há sempre mais sofrimento, talvez fosse mais sábio dizer que por trás do sofrimento há sempre uma alma.”
Wilde escreve para Douglas, mas também escreve para si mesmo e seus amigos garantiram que a obra chegasse até nós, Douglas se desfez do exemplar que recebeu. Em determinado momento escreve: “absorver tudo aquilo que sofri, fazer com que se torne parte de mim mesmo, aceitá-lo sem queixas, medo ou relutância”. Wilde mesmo depois de tudo ainda insiste na beleza e no amor. Não porque procure justificar aquilo que lhe aconteceu, mas porque tenta descobrir o que fazer com aquilo que já não pode ser desfeito.
De Profundis revela o esforço de um homem que não permite que a humilhação e a perda tenham a última palavra sobre quem ele foi. Volto ao gesto de Robbie. Enquanto todos participavam, de alguma maneira, daquela humilhação pública, um amigo se recusou a fazê-lo. Robbie não podia libertá-lo, devolver sua casa, seus livros, seus filhos ou a vida que havia perdido. Podia apenas retirar o chapéu quando Wilde passou diante dele. Mas naquele gesto havia alguma coisa que todo o resto parecia ter desaparecido: reconhecimento. Acho que por isso Wilde escreveu:
“Onde quer que haja sofrimento, o terreno é sagrado.”