O que é ser um escritor romancista?

Existe uma pergunta que já foi formulada por diversas vozes e respondida de diferentes maneiras ao longo da história. Ainda assim, ela permanece aberta, como acontece com toda pergunta que comporta várias possibilidades de resposta: o que é ser um escritor romancista?
Ser escritor, assim como acontece com alguns poucos ofícios, carrega algo de quase religioso, sagrado e místico. É uma atividade que ocupa um lugar de admiração, mas também de mistério. Afinal, ser escritor envolve duas ações que não podem ser inteiramente separadas: escrever e ser lido.
E ser lido se parece, em alguma medida, com ser ouvido. Para que isso aconteça, é preciso que alguém se interesse pelo que você tem a dizer. A escrita pode nascer na solidão, mas encontra sua continuidade no outro; naquele que abre o livro, percorre as palavras e aceita permanecer por algum tempo no mundo criado pelo autor.
Haruki Murakami inicia Romancista como vocação perguntando se o romancista é uma pessoa generosa. Ao tentar responder, reconhece que existem pessoas de índoles muito diferentes exercendo esse ofício. Ainda assim, os romancistas, em geral, tendem a estar convencidos daquilo que escrevem. A generosidade do escritor, para Murakami, não estaria necessariamente em saber ouvir, mas em saber receber aqueles que estão chegando: os novos escritores.
“Talvez a generosidade dos romancistas esteja relacionada com o fato de que a indústria literária não ser uma sociedade em que o ganho de um signifique necessariamente a perda do outro.”
Essa observação retira a literatura da lógica habitual da competição. O surgimento de um novo escritor não elimina o espaço de outro. Um livro não precisa ocupar o lugar de outro livro. Cada obra pode encontrar seus próprios leitores, porque a experiência literária não se esgota em uma única voz.
Murakami também pontua que, embora o mundo literário esteja aberto a qualquer pessoa que deseje se arriscar, permanecer nele é outra questão. A longo prazo, existe uma espécie de seleção natural. Muitos podem começar a escrever, mas continuar escrevendo exige algo que ultrapassa o entusiasmo inicial.
Talvez seja por isso que ele afirme:
“O escritor é aquele que tem necessidade de fazer o que é desnecessário.”
Escrever um romance não resolve, de maneira imediata, nenhuma necessidade prática. O mundo continuaria existindo sem aquela história. Ainda assim, para quem escreve, escrevê-la pode ser absolutamente necessário. O escritor se dedica ao que, para os outros, talvez pareça dispensável, mas que dentro dele adquiriu o peso da urgência. Essa urgência não significa, porém, transformar imediatamente tudo o que acontece em explicação ou conclusão. Murakami descreve seu próprio processo como uma forma de recolhimento:
“No meu caso, quando acontece alguma coisa, não tento chegar imediatamente a uma conclusão. Em vez disso, minha mente procura reter as experiências, as cenas e as pessoas exatamente como são (na medida do possível). Eu as encaro como casos, ou seja, amostras.”
O romancista seria, então, também uma espécie de colecionador de memórias. Alguém que guarda cenas, pessoas, gestos, atmosferas e experiências sem exigir que revelem imediatamente o seu significado. O escritor observa e retém. Algumas dessas amostras permanecerão silenciosas durante anos; outras, em algum momento, encontrarão uma história à qual pertencer.
Mas escrever e publicar também significa se expor. Quando uma obra deixa de pertencer somente ao autor e passa a circular, ela se torna alvo de interpretações, julgamentos e críticas. Murakami recorda:
“Além disso, eu e as obras que escrevia éramos alvo de severas críticas no Japão. Mas eu pensava que ninguém é perfeito, então as obras também não podem ser, e naturalmente elas estão sujeitas a críticas. [...] Hoje avalio que as críticas eram uma forma de liberação da frustração que os membros da indústria literária japonesa (escritores, críticos, editores, entre outros) sentiam.”
Aceitar que nenhuma obra é perfeita talvez seja parte do aprendizado de todo escritor. Um livro nunca corresponde inteiramente àquilo que o autor imaginou. Além disso, depois de publicado, passa a existir em um espaço que ele já não controla. Cada leitor encontra uma obra diferente, porque lê a partir das próprias experiências, expectativas e frustrações. Nem sempre, portanto, é possível compreender imediatamente o valor de um livro, o sentido de uma crítica ou o lugar que determinada obra ocupará. Algumas respostas só aparecem depois que o ruído inicial desaparece. Como escreve Murakami:
“Neste mundo há muitas coisas que vão ser confirmadas com o tempo ou que só podem ser confirmadas com o tempo.”
Talvez ser romancista também seja isso: aprender a conviver com aquilo que ainda não pode ser confirmado. Escrever sem saber exatamente quem irá ler, como a obra será recebida ou se ela sobreviverá ao tempo. Guardar amostras do mundo, realizar aquilo que parece desnecessário e confiar que, em algum momento, as palavras encontrarão alguém disposto a escutá-las.