Michelle Fernandes's blog
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Nem só de premissa se faz literatura...

Nem só de premissa se faz literatura...
Photo by Angelika P on Unsplash

Eu particularmente odeio críticos em geral: críticos de cinema, de moda, de arte (estes um pouco menos, porque os acho um pouco generosos), odeio os críticos de notícias da vida comum, odeio as reações de vídeos e cortes nos quais alguém avalia <para um suposto público> a ação de alguém. Vários mini-ódios reunidos no meu olhar cansado do mundo das reações.

Um deles me irrita um pouco mais: o crítico literário. Ah, porque faltou isso. Ah, porque peca naquilo. Ah! Tais articulações faltam nisso. Camadas e camadas de ausência sobre algo que eles não fizeram. Com todos esses ódios guardados no meu coração, fui despertada por um corte da Socorro Acioli sobre a crítica que recebeu do seu livro e sobre como, de forma bem-humorada, ela lidou com a situação: “estatelada na cama olhando pro teto”. Aqui, uma pequena digressão: o jornalista que estava ao lado dela acentuava que era contra contratar capangas para retalhar críticos da Folha…

AH, A QUE PONTO CHEGAMOS, MEUS AMIGOS. Um jornalista não conhece uma figura de linguagem chamada ironia?

Que ironia…

Bem, como na maioria das vezes acho que críticas são mais fáceis do que criar e que críticos são pouco generosos, fui seduzida pelo carisma inquestionável da autora e decidi: vou ler Oração para desaparecer.

Esse título mexeu comigo. Já pensei muito sobre desaparecimento e esquecimento, e uma oração para desaparecer me parecia um ótimo texto para alguém que já desejou jamais existir.

Antes de ler o livro, pensei em ler a crítica. Certamente injusta (imaginei). Mas só tinha a opção paga, (mercenários!!!). Portanto, teria que me aventurar neste livro de olhos vendados e certa de que quem havia feito a crítica tinha sido extremamente injusto ao fazê-la. Como poderia uma autora com tamanho carisma ser tão criticada...

Tomei empréstimo no MEC Livros — viva o Ministério da Educação! — e comecei a ler.

Fui impactada pela premissa: uma mulher é desenterrada viva. UAU!!!!!!!

As primeiras páginas me tomaram por completo. A imagem, o mistério, os elementos. Quais caminhos iríamos perseguir?

Aos poucos fui sendo tomada por uma decepção. Talvez duas: a primeira com o próprio livro; a segunda porque teria que concordar com um crítico que nem sei o que ele criticava.

O livro é, infelizmente, ruim.

O poder da literatura, para mim, é ser imersa numa história criada que, por mais inverossímil, torna-se real, incrível, absurda. A premissa é incrível e genial. Imagine você nascer da terra sem história, apenas com marcas e lapsos do passado? Mil vezes genial.

O livro não consegue sustentar aquilo que criou.

É recheado de simbolismos e imagens pouco exploradas. Usa o recurso da narração-entrevista e deixa tudo meio chato. Entrevista com o Vampiro já fez isso mulher…

As imagens, as personagens, a misticidade, o romance, os cortes mentais da personagem principal: tudo raso como um pires. O nome da marca de vinhos era mesmo relevante? Quantas imagens pouco detalhadas deus mio!!!

Cansativo.

Lá pelas tantas lança-se uma frase de Saramago: “sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Apesar de amar Saramago e essa frase, ao lê-la soltei um lamento em voz alta mesmo:

“Ahhh, nãoooo, vai apelar?”

Tenho uma lista interminável de livros para ler e furei a fila por este. Ainda bem que foi lido em dois dias e sem gasto financeiro. Algumas partes ultrapassei como quem passa um story que não quer fixar na memória. Escrevi isso com chateação porque a premissa era tão boa... tão boa...

Mas nem só de premissa se faz boa literatura.

No geral, acho críticas injustas. Penso: quer melhor? Faça!

Quem sabe um dia, rs.

Mas, por enquanto, aprendi com esse livro sobre o que não fazer. Não sei qual leitora a autora tinha em mente quando escrevia, mas não era eu.

Fiz uma oficina de escrita com uma autora bem lida e publicada. Ela fez uma pergunta aos participantes e ouviu de cada um por que estava na oficina e se escrevia etc. Na minha vez, respondi que era ainda uma escritora que não escrevia porque não tinha nada de interessante para dizer. Quando tivesse, escreveria. Ela me respondeu que achava que era uma falsa questão.

Certamente, ela nunca perdeu tempo lendo um livro que sai de um lugar incrível para lugar nenhum... Talvez eu pague para ler a crítica, pode ser que dessa vez a crítica ensine mais do que o livro.

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