O que eu falo quando eu falo de corrida
O primeiro livro que li de Murakami foi Romancista como vocação. Sua escrita exerce sobre o leitor uma espécie de aura de tranquilidade e vontade de realização, quase como um mergulho na melhor parte de si. Considero que ainda tenho um longo percurso pela frente antes de poder falar com propriedade sobre suas obras. Não li seus outros escritos. digo, os literários. Tentei ler Kafka à beira-mar, mas a leitura não fluiu. Talvez eu estivesse vivendo um momento em descompasso com aquilo que o livro exigia.
Meu companheiro é um grande leitor de Murakami. Por “grande leitor”, quero dizer que temos uma pequena coleção com quase todos os seus livros e vez ou outra ele está mergulhado em alguma das suas obras. Um dia desses, resolvi me aventurar em um deles, sem muita expectativa. A leitura me prendeu rapidamente e me transportou para uma conversa interna com uma parte muito bonita de mim.
Adoro seu realismo cru, sua ironia cortante e sua leitura do mundo tal como ele é (pra ele e pra mim rs). Um livro sobre corrida não é exatamente o tipo de livro em que eu me aventuraria, mas o ponto de vista de um romancista corredor despertou meu interesse. E que bom!
Aprendi com Murakami que correr é um desafio não contra os outros, mas a favor de si. É respiração, concentração e domínio de si. Bem, eu não corro. Mas esse livro dá vontade de comprar um tênis, colocar uma roupa e sair por aí correndo, disposta a encontrar alguma coisa de si; mas sem expectativa.
Murakami tornou-se triatleta: correu, nadou e pedalou; parece que o corpo vai exigindo cada vez mais de si. Nesse livro, ele narra seus desafios e algumas das corridas que realizou. Correr tem muito a ver com escrever. Assim como a corrida, a escrita exige fôlego, exige o corpo e exige constância. Há uma passagem que me marcou bastante. Ele narra uma corrida na qual teve um desempenho abaixo do esperado e atribui o resultado a três coisas: falta de treino, falta de treino e falta de treino. Gosto dessa lucidez com a qual Murakami olha pra si mesmo.
Correr me parece trazer clareza sobre os próprios limites. Você não consegue correr cinco quilômetros apenas porque acordou e decidiu. Antes, precisa conhecer seu corpo, sua respiração e seus limites. Precisa aceitar o lugar em que está para, então, conseguir ir um pouco além.
Quando alguém lhe pergunta o que ele espera correndo sua resposta é: “Apenas corro. Corro num vácuo. Ou talvez eu deva me colocar de outra forma: corro a fim de conquistar um vácuo.”
Talvez seja isso que a corrida e a escrita tenham em comum: ambas nos colocam diante de nós mesmos. Sem atalhos, sem distrações e sem a possibilidade de fingir que estamos mais preparados do que realmente estamos. Ainda assim, continuamos. “A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo.” Escrever e correr é viver em sua máxima intensidade.